Sinceros

Confusões, esperanças, sonhos, ambições. Todas as divagações que três mentes, distantes no espaço mas não no tempo, podem alimentar serão expostas neste blog. O tudo e o nada servirão de temas para as excentricidades destes loucos!

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Desencanto

Noite gélida. Noite solitária.
Ao seu lado na cama ela continua dormindo, satisfeita após o gozo libertador e prazeroso. Mas ele continua com os olhos abertos e a mente desperta.
Não sentiu prazer algum naqueles momentos que passaram juntos, apesar de amá-la...Não, não à ama.
Levanta-se sem fazer barulho e, da sacada, contempla as estrelas no céu límpido, tão límpido que lhe recorda olhos que marcaram sua vida para sempre.
A noite cada vez mais fria e ele ali, parado nu esperando. Esperando nem mesmo ele sabe o que!
Cada momento de sua vida terá valido a pena? Porque permanece nele o sentimento de que nada em sua vida esta certo, uma sensação de inferioridade ante as outras pessoas que ele não consegue explicar, apesar de ser belo, jovem, rico e bem sucedido.
Cada centímetro de sua pele se ressente da tepidez da noite, mas ele continua imóvel. Porque?
Insanamente ele passou a vida procurando a felicidade, agora se sente no fim da vida, com certeza de que todos os momentos felizes de sua existência não passaram de meras amostras de uma felicidade imensa, que ele agora sabe ser impossível alcançar.
A neve cai sobre sua fronte desnuda, e mesmo assim ele permanece sujeito ao encanto das estrelas.
Porque ele não volta para a cama acolhedora e quente, para aquele corpo macio e lânguido que o espera ali, a alguns passos, pronto a dar-lhe prazer e completar sua existência? Ninguém sabe... Nem mesmo ele.
Seu coração permaneceu gelado como aquela noite por muito tempo, talvez por um único instante ele tenha conhecido o amor, mas a mulher dos cabelos cor de mel se foi e ele voltou a insensividade com que passou pela vida. Nunca mais soube doar-se sem esperar conforto, amar sem esperar recompensa.
Ele já não sente seus membros.
Olha pelo vidro que o separa do quarto calidamente aquecido e vê o corpo daquela que o ama sem reservas, ele sabe. Sente algo indefinido, entre paixão e desprezo, não por ela, mas por ele mesmo... É triste não amar alguém sem freios e amarras!
Ele antegoza o momento, sentindo o coração que lhe bate cada vez mais descompassado.
Doce encanto, vida amarga. Não, o que marca sua vida é a acidez corrosiva daqueles olhos que o miraram uma única vez e derreteram sua mascara de gelo, deixando-o desnudo em meio a um mar de mascaras. Cabelos cor de mel...
Agora é tarde, aquela não voltará... Nem mesmo ele, pois a tênue linha que o prendia a vida se rompeu, e seu corpo inerte repousará para sempre, mas sua alma encontrará aquela que realmente amou.

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